Simone Costa
Quem diz isso não sou eu, mas o próprio Walter Salles, diretor de Diários de
Motocicleta, história sobre a viagem de Ernesto Guevara e seu amigo Alberto
Granado pela América Latina.
O diretor refere-se à mudança que esta viagem causou na vida desses dois
jovens, principalmente na vida de Ernesto Guevara, então com 23 anos e estudante
de medicina.
O rito de passagem a que me refiro é o de Salles como diretor. Ele vai
além de seus filmes anteriores. Será que isso se deve ao produtor
executivo, Robert Redford? Ou ao grande ator Gael Garcia Bernal no papel de
Guevara? Ou ainda a própria história, que é muito interessante?
Walter Salles, no texto que você pode ler aqui,
conta que, mesmo com o livro Diários de Motocicleta e o roteiro em mãos, ele fez
uma pesquisa minuciosa sobre a viagem de Guevara e Granada por países
latino-americanos. Esse cuidado refletiu na tela.
A produção é caprichada e não é apenas uma questão de figurino de época. As
mudanças de país, (eles saíram da Argentina, passaram pelo Chile e pelo Peru até
chegar à Venezuela), são perceptíveis na aparência e nas peculiaridades dos
personagens. Pelas estradas, a câmera seguiu inquieta a motocicleta que
escorregou no barro e na neve, subiu e desceu montanhas, atravessou rios. As
cenas em que Guevara passa por crises de asma dão a dimensão da sua falta de ar.
A expressão de Guevara e Granado muda quando eles começam a ter consciência
da realidade daqueles países, tão próximos e tão distantes de sua terra natal. A
expressão é dura e a câmera também é. A fotografia é em preto e branco para
mostrar os excluídos.
O filme dura cerca de duas horas, não tem grandes surpresas nem sobressaltos,
mas vai sendo absorvido, degustado. E em nenhum momento é piegas. Nesta
história, não há lugar para o mito Che Guevara que está estampado em camisetas,
canecas e até biquínis por aí. O que temos é a história de dois jovens que saem
de suas casas para percorrer milhares de quilômetros em busca de liberdade. A
própria motocicleta simboliza isso.
Só que a liberdade que buscavam torna-se em outra coisa a partir de uma
transformação gradual, que vai acontecendo a cada novo lugar onde chegam. Até
que desembarcam no leprosário, o ápice da história.
No texto já citado acima, Salles se diz preocupado se o filme conseguiria
trazer algumas imagens do livro homônimo. Isso não sei dizer porque ainda não li
o livro. Mas o filme me fez pensar que não conhecemos o continente que habitamos
e que deveríamos sair numa motocicleta por aí. E, sem dúvida nenhuma, o filme
também nos mostra o potencial de um grande diretor.
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